Modernismo tardio da arquitetura sacra russa?

A União dos Arquitetos da Rússia (www.uar.ru) lançou um concurso para elaboração de projetos de Igrejas Ortodoxas com traços modernistas. Nem preciso dizer que isso deu problema né? Ora, se o modernismo, mais do que como concepção formal/visual, mas como movimento/ideologia, já dá muito o que falar no tocando à arquitetura eclesiástica no ocidente, imagine no oriente? Mesmo os iconógrafos que "ousam" quebrar paradigmas dos cânones são criticados (convenhamos cânones são cânones!) imagine o que não saiu dessas ideias?

Acho que eu seria redundante aqui ao entrar na discussão sobre a tentativa contemporânea de "imitar" estilos antigos de expressão artístico/arquitetônica, contudo, acho que os arquitetos, pelo menos nesse caso, ainda terão que se esforçar mais para expressar uma noção de continuidade, simbolizada (e símbolos são importantes demais para os orientais) pelas formas das Igrejas. Confiram algumas fotos e tirem suas conclusões:








Identidade visual para Igreja Ortodoxa Russa

O escritório de design russo Tibidoh Design desenvolveu uma identidade visual para a Igreja Ortodoxa Russa, visando criar vínculos institucionais mais profundos, especialmente através da personalização de produtos não "necessariamente" religiosos.

acima: versão monocromática | abaixo: versão do logotipo em inglês

Segundo os idealizadores, o conceito visa tornar mais compreensível o que hoje forma o referencial visual da Igreja, "uma imagem borrada, que consiste em uma massa de símbolos dispersos", segundo o site tibidoh-design.com. Abaixo algumas aplicações:










Avaliação do blog? Olha, eu gostei, de verdade. Mas pedindo licença ao "designer" que vos fala, é bastante ousado até mesmo "discutir" o conjunto visual das tradições orientais, haja visto que há bastante resistência por parte do clero e povo. Contudo, tenho notado que a Igreja Ortodoxa Russa tem adotado  uma padronização interessante em todos os seus meios de comunicação, tanto na Rússia quanto na diáspora. Creio que a ideia, especialmente no tocante às aplicações em produtos como bolsas e camisetas, sofra algum tipo de resistência e/ou adaptação, para que não se caia na banalização do símbolo.

I Jornada de História e História da Arte Sacra


Nos dias 14 e 15 de julho próximo irá se realizar a 1ª Jornada de História e História da Arte Sacra da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro. No primeiro dia, quinta-feira, serão apresentadas pesquisas desenvolvidas no Grupo de Estudos Tardo-Antigo e Medievais (GETAM), de formação livre, a partir dos contatos com os alunos oriundos da Pós-graduação em História Antiga e Medieval. No segundo dia, as comunicações estarão a cargo dos alunos da Pós-graduação em História da Arte Sacra.

Organizado de maneira voluntária e contando com comunicações do corpo discente, espera-se que o evento seja uma boa oportunidade para divulgar os trabalhos monográficos e as pesquisas subsequentes nessas Especializações oferecidas pela FSB-RJ, um espaço de debate acadêmico de alto nível e uma sementeira de novas investigações nos campos da História Antiga e Medieval e da História da Arte Sacra.

Todos os eventuais interessados, são bem vindos! A inscrição para os ouvintes é gratuita e deve ser feita nos próprios dias e local do evento; serão emitidos certificados de participação aos que assim desejarem. Mais informações sobre o evento podem ser encontradas no jhistoriaehistoriaartefsbrj.blogspot.com.br ou solicitadas através do jornadasdehistoriafsb@gmail.com.

No dia 14, estarei ministrando a palestra "Por Antioquia, além do oriente: a retomada da catolicidade missionária da Igreja Ortodoxa Siríaca a partir da experiência das novas comunidades no ocidente", cujo resumo encontra-se abaixo:

O deslocamento forçado de famílias siro-ortodoxas para o ocidente, promovido especialmente pelo genocídio perpetrado pelo Império Turco-otomano em 1915, popularmente conhecido como Sayfo (do árabe espada), levou a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia à elevação de Igrejas para o atendimento dessas comunidades em todo ocidente, quebrando assim um longo período de estancamento dessa Igreja quanto à sua expansão missionária. O espírito apostólico/missionário da Igreja de Antioquia, justo motivo para a outorga de seu título de Patriarcado de Antioquia e Todo Oriente, que fora atingido inicialmente pelas controvérsias do Concílio Ecumênico de Calcedônia (451), e enfraquecido subsequentemente pelo desenrolar histórico/político médio-oriental, agora encontrava um terreno fértil, embora desconhecido, para retomada da catolicidade missionária de sua expansão eclesial, haja visto que esta Igreja fechou-se em seu contexto sócio-étnico-geográfico por séculos, o que não condizia com sua própria origem apostólica, tão marcada pela pluralidade de povos que dessa Igreja receberam o Evangelho. Ainda que, por cerca de meio século, tenham se mantido reservadas às colônias de imigrantes, o não regresso destes colonos aos seus países de origem deu espaço para o contato dos ocidentais com essas Igrejas, que se viram obrigadas (mesmo a contragosto de seus patrícios e sob muitos conflitos) a reinventar-se (ou redescobrir-se) para atender a uma vida eclesial num contexto sociocultural ocidental, formando assim as comunidades missionárias da Igreja Sirian Ortodoxa no Brasil e reformando a visão das ditas comunidades de colônia quanto à própria catolicidade missionária da Igreja em todo o mundo.

Simbolismo e Metodologia Projetual de Design Aplicada no Desenvolvimento de Artefatos Religiosos

Esse título enorme acima é o nome do grupo de pesquisa que eu e a profª. Ma. Karoline Guimarães, estamos coordenando com os alunos da graduação em Design da Universidade Ceuma, em São Luis do Maranhão. O objetivo, resumidamente, é inserir os estudantes dentro do processo metodológico projetual utilizando como temática uma campo de trabalho não tão "corriqueiro" no design, que é o caso dos projetos de temática religiosa.


Na primeira fase do projeto, que tem previsão de 12 meses para conclusão, os estudantes tem como objetivo desenvolver um livro ilustrado para crianças a partir de 3 (três) anos de idade, da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, com informações de caráter catequético e litúrgico.

A escolha do tema, por mais que vocês não acreditem, não se deu necessariamente pelo fato de eu ser sacerdote da Igreja Sirian Ortodoxa, apesar de isso ter embasado bastante a escolha. O fato é que a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia no Brasil possui uma ala missionária, voltada para evangelização de brasileiros e que ainda é muito carente de ferramentas e instrumentos de evangelização, especialmente no tangente as mídias, sejam impressas ou digitais. Obviamente, a escolha do tema, como disse, pôde basear-se em minha experiencia pessoal como missionário da Igreja no Brasil que, além do trabalho comunitário, desenvolvo o papel de coordenador da Comissão de Comunicação da Igreja Sirian Ortodoxa no Brasil.

No mais, em breve trago mais fotos e resultados dos trabalhos.

Pax!

Vamos voltar a falar de Design!

E depois de trilhões de anos sem publicar nada, vamos voltar às atividades. Peço perdão aos meus leitores, mas os últimos anos foram marcados por acontecimento, digamos, "divisores de águas" em minha vida, o que me fez ficar adiando, adiando e adiando a volta ao blog.

E para marcar essa volta, trago aqui uma série de grafites cuja releitura da iconografia bizantina me chamou muita atenção. Nesse caso, não há, evidentemente, nenhuma intenção de serem uma arte "devocional", não somente pelo local onde estão aplicados, como pelo próprio princípio de que a iconografia, especialmente a bizantina, necessariamente obedece aos cânones da Igreja quanto à Tradição de se fazer ícones.

O trabalho é do artista plástico ucraniano Serhiy Radkevych



Enfim, como "arte religiosa" e não "sacra", eu achei bem legal!










Cláudio Pastro e o "design" para o Papa Francisco

Eu sei, eu sei, a visita de Sua Santidade o Papa Francisco ao Brasil foi em julho de 2013 e só agora eu venho falar sobre isso. Eu confesso, o ano de 2013 não foi muito feliz para o blog, pois eu acabei me atrelando às minhas atividades acadêmicas e religiosas e, quando sentava pra escrever, pouco me restava de paciência. O blog passou um tempão parado, mas prometo que em 2014 estarei mais presente.

Mas voltando à visita do Papa, uma linda festa heim? Muitos jovens, muitos padres, muitas celebrações, enfim, muito tudo, até muita gente falando e fazendo besteira, como protestos desnecessariamente obscenos em Copacabana. Enfim, passou, e o que ficou foi o que foi bonito! Ahhhh beleza, vamos falar de design?

Para visita do Papa foram encomendadas peças sacras que seriam usadas nas celebrações tanto no Rio de Janeiro quanto em Aparecida. Adivinha pra quem foi encomendada essas peças? Adivinha vai...aaahh, faz um esforço aê! vai...vai...

Ora, ora, ora...pra quem seria? Ele...artista, iconógrafo, arquiteto, teólogo, historiador e também DESIGNER! Estou falando dele, Cláudio Pastro!

Bem, brincadeiras à parte, o que sei é que ele é artista plástico. Os outros títulos nem ele mesmo se dá, quem as vezes faz isso é a mídia, que não se dá ao trabalho de fazer uma boa pesquisa.


Arquiteto ele não é e iconógrafo também não, afinal, apesar de suas obras terem uma inquestionável influencia "estilística" na iconografia oriental, os "ícones" são, segundo o bispo ortodoxo Kallistos Ware:

"Um ícone não é simplesmente uma figura religiosa desenhada para despertar os sentimentos adequados no observador; é uma das formas pelas quais Deus é revelado ao homem, pois através dos ícones o cristão ortodoxo recebe uma visão do mundo espiritual. Sendo o ícone parte da Tradição, o pintor não tem a liberdade de inovação e adaptação, já que o trabalho deve refletir, não o seu juízo estético e sim o espírito da Igreja. Não se exclui a inspiração artística, ela é exercida dentro de regras determinadas. É importante que o iconógrafo seja um bom artista e, mais importante ainda, que ele seja um cristão sincero e que viva dentro da tradição preparando-se para o trabalho através da Confissão e da Comunhão."

Enfim, ícone que é ícone, além de tudo isso descrito acima, deve ser feito em jejum e oração, e ainda tem que ser benzido por um bispo. Pintar algo "ao estilo bizantino" na parede não caracteriza a obra como "ícone" em si.

Teólogo e historiador ele também não é, mas escreve bastante sobre história da arte sacra e a espiritualidade da "beleza". Eu mesmo tenho alguns livros do Pastro e, confesso, tem muita coisa boa e muitas vezes os tomo como referência para minhas aulas e palestras. Se bem que tem algumas "coisinhas" bem questionáveis no discurso do Pastro, mas enfim, eu ainda o defendo como o grande nome da arte sacra contemporânea, não necessariamente por sua obra (como eu disse, tem coisas questionáveis) mas por ele ser um artista que realmente se dedica à arte sacra, voltando a simbologia de sua obra sobretudo à reflexão litúrgica. 

Por isso, não há nada de estranho no Pastro ser escolhido para desenhar as peças sacras para a visita do Papa ao Brasil, afinal, ele é o artista sacro do momento né? Mas peraê, eu também disse lá no quarto parágrafo que ele é DESIGNER né? Ah, essa é mais uma coisa que ele não é! Artista plástico sim, sem dúvida, mas designer não (apesar do jornal da Globo dizer o contrário). 

Eu nem quero entrar no mérito da discussão entre o que é arte e design, pois eu cansei disso na época da faculdade ainda. Mas o fato é que, assim como quem é arquiteto é quem faz arquitetura, também designer é quem faz design. 

Cláudio Pastro
Entrei nesse assunto porque a mídia apresentou o Cláudio Pastro como o “designer” que faria os objetos sacros que seriam utilizados pelo Papa no Brasil, entre cálices, patenas, turíbulos etc. De fato, as peças foram feitas e, algumas delas ficaram bem “artisticamente” interessantes mesmo, contudo, é notório que outros deixaram (e não tinha como ser diferente) bastante a desejar no que tange ao “design”, desde critérios ergonômicos quanto simbólicos.

Pastro acertou na matéria prima, afinal ele quis exprimir a nobre simplicidade de suas peças utilizando latão, com alguns detalhes escovados e banho de ouro interno nos cálices por exemplo. Eu realmente achei uma ótima ideia, especialmente pelo custo do material e também pelo peso final das peças. Contudo, especialmente os cálices são visivelmente falhos quanto à ergonomia. A parte superior é exageradamente grande em relação à base, com a coluna que liga ambas sendo muito curta e dificultando o manuseio pelo sacerdote.



Mesmo sendo leve, durante o manuseio o sacerdote fica prejudicado pelo apoio central da coluna, que praticamente não existe, se vendo obrigado e segurar o cálice pelas extremidades da parte superior. Considerando que a superfície é polida e obviamente lisa, na altura em que o sacerdote iniciar a oração eucarística, suas mãos provavelmente estarão suadas e a possibilidade de um acidente é muito grande, sem contar o fato de o sacerdote em questão (o Papa) já ser um idoso.

Lembro-me muito bem de quantos trabalhos de metodologia do design fiz na faculdade e o quanto emprego algumas dessas técnicas até hoje em meus trabalhos. Um fase importante é a pesquisa de similares, que norteia o desenho do projeto dentro de experiencia previamente testadas. Quando falo da coluna central do cálice, esta evidentemente existe para sustentação do mesmo. Juro que este cálice em si só me lembra uma coisa:


Tem um deses no jardim lá de casa!

Deixando o jarro...ops...o cálice de lado, gostei bastante das patenas. Grandes e ótimas para celebrações grandes, como é típico das celebrações pontifícias, valendo o mesmo comentário sobre o material, no que o Pastro foi muito feliz. Desenho limpo, uma cruz ao estilo Pastro na parte central interna. Eu achei ótima!


Agora vamos ao turíbulo. Outro dia fiz uma postagem aqui trazendo a questão do turíbulo e sinceramente prefiro que você leia o outro post e compreenda melhor minha visão do assunto. De qualquer forma, eu acho que se há pecado no design, o artista plástico Cláudio Pastro errou também na pesquisa de similares.

Turíbulo projetado por Pastro para o Papa

É sério, me lembrou isso:


Enfim, escolhas felizes, outras nem tanto, nada mais normal se o assunto é arte. O problema é quando se chama isso de design! Como designer que sou, me sinto no dever de me pronunciar a respeito. Gosto de muita coisa que o Pastro faz e juro que duvido que eu faria coisa melhor,  mas provavelmente eu assumiria a postura de consultor de design e liturgia e indicaria peças já existentes, não menos modernas, porém melhor projetadas.

Xlomo!

Boné clerical?


NÃO, NÃO E NÃO! DEFINITIVAMENTE NÃO!

É muita preguiça de abotoar uma gola de camisa né? Francamente, qual é a próxima, uma cueca clerical?

Oremos!

Quando a arte e o design se encontram com a liturgia

Não é de hoje que apresento aqui produtos assinados por designers, muitas vezes dando minha opinião crítica quanto aos elementos simbólicos que os constituem. Os resultados muitas vezes não são "felizes" por mais que o profissional tenha estudado toda sacrosanctum concilium, pois a falta de uma adequada sensibilidade litúrgica casada com a necessidade de cada profissional de se provar, acaba muitas vezes gerando produtos excessivamente constituídos por elementos geométricos sem sentido e/ou que não dialogam com o patrimônio simbólico sofridamente formado e existente dos objetos sacros.

Acredito e professo que tudo na Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo, é eterno e, no que tange ao patrimônio visual, também é eternamente bonito. Por mais que você seja fã de arte moderna e contemporânea e adore um movimento de vanguarda, é inevitável ficar pasmo com a esmagadora (e as vezes desconcertante) beleza do barroco ou do bizantino. Por isso, projetar produtos que percam todo e qualquer vínculo artístico com o patrimônio artístico pregresso (mas ainda assim eternamente belo) da Igreja, na minha opinião como designer e cristão, é bobagem.

É o caso do turíbulo abaixo, à venda no site holyart. Eu não vou nem comentar a naveta e a colher, que parecem o açucareiro da minha casa, mas vou me ater aos detalhes do turíbulo em si.


Inovador não? Eu achei!!! Olhe só, feito em latão e aço, com acabamento riscado e cabos de aço no lugar das correntes...eu achei perfeito...pra decorar minha casa! (aliás, não, porque eu não daria 603 euros nisso).

Mas pra Igreja não!

Mas Pablo, quem é você pra dizer isso? pra proibir? Quem te deu essa autoridade? e mimimimimi...

Eu não estou proibindo nada, só estou dizendo que esse turíbulo não tem absolutamente nada de artisticamente ou simbolicamente sacro. Mas se você, padre, seminarista, coroinha, bispo, ou o que quer que seja, quiser utilizar pra combinar com seu mau gosto, fique a vontade.

Como disse, eu achei o turíbulo acima bem bonito e sofisticado, o que o colocaria como uma ótima peça de decoração na casa de um cristão antenado com o que há de melhor no design. Contudo, numa igreja, cada elemento deve proporcionar um diálogo simbólico com o hoje, o ontem e o sempre. Isso não quer dizer que objetos sacros com design "moderno" não tenham espaço na Igreja, mas sim que estes objetos devem conservar os "clássicos" elementos constituintes de cada peça, como é o caso das correntes (que sejam correntes de fato) dos turíbulos, mostrando-se continuamente eternos e não menos "modernos".

A questão é sempre essa: querer quebrar todo tipo de paradigma a ponto de causar (ou pelo menos começar) uma descaracterização tão grande dos objetos a ponto de torná-los irreconhecíveis.

Um exemplo de um "bom" design que trabalha o diálogo do ontem e do hoje muito bem é o modelo abaixo:

Moderno? sim. Bonito? sim. Inovador? sim. Qualquer um reconhece como um turíbulo? sim. Posso levar pra sacristia? Sim!!!

Esse já não combina com minha casa, afinal, apesar de em nada se parecer com os detalhadíssimos turíbulos góticos, ao contrário, sendo bastante minimalista, ele mantem um apelo visual característico do objeto sacro em questão, como a cruz no topo e as correntes (sem falar na opção dourada).

Fica a reflexão, para os designers de produto de plantão, que desejam se aventurar no mundo sacro. Abaixo, mais alguns bons exemplos:

 



Paz e bem!

Abajur? Tocha olímpica? aahh...é um cálice!

Olha, eu sou designer.

Sim, isso mesmo, eu sou designer.

Por mais que eu admire toda expressão artística anterior à dita “modernidade”, e muitas vezes a defenda diante de qualquer pretensa descaracterização do ambiente religioso por parte da invasão de elementos modernos, eu não posso negar que toda minha formação acadêmica e profissional no início do século XXI como designer me leva a “preferir” elementos formalmente limpos, cuja forma valorize o ser funcional do mesmo.

Consequência de um século inteiro onde imperou os movimentos de vanguarda? Sim, e se isso for para eu escolher uma luminária para minha casa isso não é problema algum. À propósito, me abrindo pessoalmente um pouco aos meus leitores, ando fazendo isso bastante, pois provavelmente casarei esse ano e, quem casa quer casa, e quando se casa com uma arquiteta, isso fica mais sério ainda!

Mas Pablo, onde você quer chegar que esse papo todo?

Bem, é o seguinte. Eu não sou (apesar de preferir o oposto nesse caso) um inimigo dos espaços religiosos modernos. Alguns é claro (ou a maioria) deixam a desejar quanto à qualquer simbolismo que nos conduzam a compreender aquele espaço como sendo sagrado, mas alguns, eu disse “alguns” conseguem resultados bastante satisfatórios.

Mas discernimento não é um dom muito popular em nossos dias, inclusive (infelizmente) entre o clero, que muitas vezes dá margem aos maus (ou confusos) artistas, arquitetos e designers que, ou por falta de aprofundamento litúrgico ou por simples anarquia, projetam toda sorte de “esquisitice” para servir às funções sagradas.

Algumas coisas são toleráveis, apesar de nitidamente diminuir a dignidade litúrgica característica de seus elementos, como é o caso da foto abaixo, onde os sacerdotes parecem ter arrancado suas casulas das mãos das costureiras antes que elas tivessem terminado o trabalho:


De qualquer forma, é uma casula. Feia! mas é uma casula.

Mas o motivo da postagem mesmo é a foto abaixo. Quem foi, pelo Amor de Deus, que disse tanto para o bispo que está usando, quanto para o "artista" que desenhou a peça, que isso é um cálice?


É nessas horas que os críticos militantes do trabalho do Cláudio Pastro dizem: "e eu que pensei que não podia piorar...".

É sério, metodologicamente todo projeto toma por referência uma série de produtos similares que, mesmo que inovem em sua composição formal, mantêm características que deem aos usuários a capacidade de identificá-los como tal. Assim, um cálice, por mais moderno que seja, deve ainda ser e "parecer" um cálice, e não a base de um abajur!


A necessidade muitas vezes de "modernizar" visualmente a igreja não pode ser desculpa para descaracterizar o legado litúrgico/visual formado através dos séculos. Chega a ser um desrespeito ao patrimônio sofridamente desenvolvido pela liturgia através dos séculos, por empobrecer sua simbologia.

Eis, ao cristão, a cruz

autor: Pablo Neves, designer especialista em arte sacra | Mestrando em Design

A todo cristão vale a doutrina básica de que Nosso Senhor e Salvador Jesus é o verbo de Deus encarnado, em tudo igual a Deus e em tudo igual ao homem, exceto no pecado, que por nós morreu e ressuscitou. Assim, Deus não é para nós algo distante ou invisível, haja vista que em Cristo contemplamos a segunda pessoa da Trindade, que é um só com o Pai e o Espírito Santo. Portanto, para nós cristãos, Deus é também tangível, é passível de ser tocado ao mesmo tempo que é adorado em toda sua dimensão, por exemplo, na Santíssima Eucaristia, que é verdadeiramente o Cristo em corpo, alma e divindade

Nenhum objeto material é santo por si mesmo, mas é santificado pela misericórdia de Deus no momento em que começa a fazer parte das coisas do alto, ou seja, quando começa a ter parte com o céu, o qual pertence a Deus. Ora, tudo aquilo que então tange o sagrado é automaticamente “sacralizado” por fazer parte diretamente do mistério divino, por mais simples ou controverso que seja sua matéria ou simbologia.

Como é possível que duas simples barras que se cruzam possam nos dizer tanto? Como um símbolo de punição e morte pode converter-se em sinal de salvação e vida? Ora, na cruz tudo é consumado, todo o Amor de Deus pela humanidade é escancarado pelos séculos dos séculos, fazendo com que o madeiro da cruz deixe seu posto de sentença aos criminosos e se eleve a um verdadeiro marco donde é derramada a redenção para a humanidade.

Contemplar a cruz é, portanto, contemplar onde se deu o verdadeiro duelo entre a vida e a morte, no qual Nosso Senhor Jesus Cristo venceu e triunfou por Amor, derrotando a morte e o pecado. A cruz é para todo cristão o símbolo maior do Amor de Deus para conosco, não pelo objeto em si, mas por todo mistério nele realizado, pela vitória nela alcançada por Cristo a qual nenhum outro objeto material já existente neste mundo ou em qualquer outro pode abrigar. Somos todos marcados pela cruz e carregamos a vitória nela alcançada através de nosso batismo.

Tratar a cruz como um símbolo é primeiramente entender que a palavra “símbolo” quer justamente dizer “ação de unir”. Todo símbolo nos remete a um significado e nos transfere a uma realidade atemporal, tornando-nos comuns àquilo que representa, quando compreendemos, evidentemente, seu significado. Sendo símbolo do sacrifício de Nosso Senhor e Salvador, a cruz é um elo visível entre todo cristão e o próprio Cristo, que se deu na cruz por todos nós. Ela nos une a todo mistério da salvação, ao evangelho, a toda igreja e a todas as pessoas que creram, creem e crerão em Cristo como Nosso Senhor e Deus até a consumação dos tempos. Toda a igreja se encontra na cruz, independente do tempo ou da circunstancia, do contexto cultural ou político, ela assinala nossas vidas em tempos de paz ou tribulação, ela nos dá esperança, nos abençoa e nos guia, por exemplo, pelas mãos do sacerdote que a traça sobre nós agindo na pessoa do próprio Cristo.

Toda cruz é formada basicamente por duas barras que se cruzam num ângulo de 90º. Há, entretanto, diversos modelos de cruzes que variam em seus elementos, enriquecidas através dos tempos pela arte sacra, pela arquitetura e atualmente, inclusive, pelo design, nesse último caso em propostas visuais contemporâneas que buscam enaltecer o caráter tão antigo, porém sempre tão novo da mensagem evangélica. Entretanto, toda representação da cruz obedece (e deve obedecer) sempre à formatação básica de duas barras cruzadas, possuindo às vezes até outras barras como forma de evidenciar sua pretensão simbólica, que podem, sem detrimento algum de sua essência, variar de acordo com a tradição artística e litúrgica do contexto no qual a mesma está inserida.

É o caso da cruz eslava, também conhecida por cruz de oito braços, bastante comum nas igrejas de tradição bizantina, onde cada barra horizontal possui um significado distinto, porém que se complementam formando uma única mensagem. A barra superior simboliza a inscrição sobre a cabeça de Jesus, a central (e maior) onde as mãos de Jesus foram pregadas e a inferior o apoio onde foram pregados os pés do Senhor.

Cruz eslava
Outra variação de modelo de cruz bastante curiosa é a chamada “cruz copta”, tradicionalmente utilizada pelos cristãos do Egito. Cada extremidade dos braços da cruz possui três pontas, simbolizando a Trindade, somando ao todo doze pontas que remetem aos doze apóstolos, aos quais foi confiada a Igreja e a pregação do Evangelho até os confins da terra. É notório que a diversidade de tradições cristãs incrementou o formato básico da cruz, como forma de enfatizar toda a riqueza simbólica impregnada nela, por talvez muitas vezes tal riqueza não apresentar-se de forma clara, porém em si não menos verdadeira. É como se cada formato ou variação de elementos quisesse expor ainda mais a riqueza intrínseca à forma básica da cruz, fazendo com que a mesma, na sua diversidade, seja constantemente enriquecedora para nós em simbolismos, tocando profundamente nossa fé e nos catequizando dia após dia.

Cruz copta
Envergonhar-se da cruz é envergonhar-se do próprio Cristo, de modo que toda relação com a cruz, quer contemplando-a, usando-a como um pingente ou pendurada na sala de casa, quer traçando-a sobre nossa fronte ou sobre a testa dos que amamos, enfim, carregar a cruz em nossas vidas revela nossa íntima relação com aquilo que cremos, afirmando constantemente, como bem lembrou o salmista, sermos sondados por Deus na plenitude de nossas vidas, por todos os lados e em todas as circunstancias. É confessar constantemente que Deus já nos conhecia antes mesmo de sermos gerados e que Nosso Senhor nos amou primeiro, na cruz entregando-se, amando-nos e salvando-nos.