Colarinho Romano e clergyman: diferenças

Vagando pela internet, sempre encontro sites de empresas especializadas em vestes litúrgicas, também chamadas de “paramentos”, que oferecem uma ampla variedade de modelos, além de objetos litúrgicos, livros etc.

Como era de se esperar, diante a esmagadora falta de catequese que predomina no mundo de hoje, desde a familiar até a formação do próprio clero, encontramos nesses sites alguns equívocos que já tornaram-se comuns, induzindo os leitores a confundir as coisas.

Obviamente, se eu fosse falar aqui sobre vestes litúrgicas, precisaria criar outro blog, já que a história e toda evolução desses elementos é de tamanha riqueza e profundidade que é praticamente impossível resumi-la num só texto. Mas, para termos uma noção do quão generalizado são esses equívocos, vamos tratar de um pequeno detalhe desse mundo, que por vezes passa despercebido, mas que é crucial no tangente a identidade de cada grupo cristão: A diferença entre colarinho romano e clergyman.

E por que falar disso aqui? Ora, como disse, há várias empresas especializadas na confecção de vestes litúrgicas e, necessariamente, há quem desenhe essas peças. Por mais restrito que se pareça, por conta de tratar-se de uma área muitas vezes restrita à Tradição, devendo seguir um modelo já existente como base, há sim estilistas e designers responsáveis de criar, evoluir e, por muitas vezes, redesenhar essas peças, adaptando-as, por exemplo, à condições climáticas, temas de um determinado evento, novos materiais, etc. E se tem designer no meio, o Ecclesia Design esclarece!

Mas, para começar a tratar sobre o assunto, vamos a esse detalhe que serve como base para um entendimento. Certamente você já viu pelo menos na TV algum padre usando uma camisa (geralmente preta) com um pequeno detalhe branco no colarinho, certo? Pois é, este pequeno detalhe no colarinho chama-se clergyman (ou clesma, clésima, colarinho clerical) e, para quem pensa que um sacerdote católico usar isso é “correto” a resposta é: não!

É claro, você vai dizer “mas eu já vi até bispos usando isso!”. É verdade, a Igreja Católica hoje permite, desde o Concílio Vaticano II, em algumas condições, que esta veste seja utilizada por seu clero, mas a origem dessa veste é na verdade protestante. O clergyman é uma invenção bastante moderna (é provável que tenha sido inventado em 1827). Aparentemente, foi inventado pelo Rev. Dr. Donald McLeod, pastor anglicano. Foi desenvolvido para ser usado no trabalho cotidiano do ministro (mais prático que a batina). Ou seja, o clergyman é na verdade uma adaptação protestante da veste católica romana.

Não só os anglicanos, mas a maioria das denominações protestantes ditas históricas costuma ter seus ministros utilizando essa veste. Metodistas, presbiterianos, luteranos e até pentecostais (só não no Brasil onde os pentecostais insistem e rejeitar tudo o que sequer lembre a Igreja Católica).

Inclusive, hoje vemos até cléricos das igrejas orientais usando o clergyman, igrejas estas que costumam ser bem mais “rígidas” na conservação de suas tradições.

Segundo artigo do apostolado Veritas Splendor:

“A camisa de clergyman com colarinho em forma de tira removível (e também o rabbat, que é uma falsa camisa de frente única ou colete com colarinho, para ser usada em conjunto com um blazer e assim imitar uma camisa ou batina) foi inventada pelos protestantes "evangélicos" anglicanos nos idos de 1960, para se diferenciar dos sacerdotes católicos e também dos sacerdotes anglicanos (rejeitando assim por completo a doutrina do sacerdócio). Logo logo esta camisa foi assumida por vários outros ramos "evangélicos" mais "tradicionais" dos Estados Unidos, desde os Episcopalianos até os Metodistas. Algumas seitas evangélicas neopentecostais também encorajam seus pastores a utilizar a camisa de clergyman, mas a maioria mesmo rejeita por completo qualquer coisa que tenha colarinho e que o faça parecer um Católico Romano."
Contradições históricas a parte, o certo é que se você for desenhar um dia uma veste para um clérigo da Igreja Católica Romana ou até mesmo ter que fazer algum tipo de ilustração onde esse elemento esteja presente, por favor, não desenhe um clergyman.

Mas a pergunta é: Por que não?

A sociedade contemporânea caminha sob uma ótica relativista que já espalhou-se por todos seus setores. Em outras palavras, vivemos nos tempos do “tanto faz!” ou do “qualquer coisa é a mesma coisa”. Contudo, a Igreja Católica possui uma visão atemporal das coisas, baseada na Tradição apostólica, não rendendo-se à inovações que venham a descaracterizar sua continuidade histórica com o que foi passado desde os primeiros séculos do cristianismo. É claro, há lugares, sobretudo aqui no Brasil, onde isso parece não fazer sentido algum, pois as missas parecem com qualquer coisa, menos com uma missa católica. Mas como graças a Deus quem dita as regras da Igreja não é o clero brasileiro, devemos sim, sobretudo como profissionais, atentar para os mínimos detalhes que caracterizam cada tradição, liturgia e/ou comunidade cristã, seja ela católica, ortodoxa, protestante histórica ou pentecostal. Atentar aos detalhes é a base para que o chamado “design sacro” possa de fato existir, como “área do design voltado ao culto religioso específico”, fazendo com que nosso trabalho de fato seja sinal de caracterização profunda de cada instituição, doutrina ou pensamento.
Em outras palavras, seguindo as orientações de São Paulo, a questão é: de poder, até pode (ninguém vai preso ou é excomungado por isso!), mas não convém!

Pra não errar, abaixo algumas imagens mostrando a diferença entre os colarinhos:

21 comentários:

Joaquim Oliveira disse...

Adorei o seu artigo sobre o colarinho romano. Aprendi muito!
Parabéns!!!

Deus te abençoe!

Luciana disse...

Olá.
Achei este blog por acaso e achei bem legal.
Achei interessante tua explicação, nem sabia que existia toda essa diferença. Eu, particularmente, não gosto de quando os padres usam o clergyman [sou de uma paróquia carmelita e acho estranho os frades deixarem de usar um hábito da Ordem que é tão bonito p/ usar um clergyman, como alguns fazem, mas enfim, não sou eu que visto eles, graças a Deus, kkk]
Só queria te perguntar uma coisa; fiquei com uma dúvida a respeito do colarinho romano; porque, se o clergyman foi feito pelos protestantes para se diferenciar de tudo que é católico, porque o Colarinho Romano, que é bem parecido, pode ser usado pelos padres?
Saudações,
Luciana
http://www.castelointerior.org

Pablo Neves disse...

Cara Luciana, primeiramente obrigado por ser uma leitora do Ecclesia Design. Fique sempre a vontade de partilhar suas dúvidas e sugestões aqui.

Quanto à sua pergunta, veja bem: o colarinho chamado de "romano" é o modelo de colarinho tradicional da veste talar da Igreja Católica Romana, também chama da de batina, que deve ser usada para todo clero que não possui hábito religioso próprio. Portanto, não só pode como DEVE ser usado, como sinal de que aquele homem (o padre)é um sacerdote, que abdicou das vaidades mundanas e vestiu-se, literalmente, de santidade e caridade, em nome de Cristo e por amor aos irmãos.

O "clergyman" é uma criação da Igreja anglicana, tanto que seu nome ainda é dado em inglês, não como forma de contrapor a Igreja Católica Romana, mas sim de tornar mais prático o uso da veste clerical. Sendo o anglicanismo, querendo ou não, uma dissidência do catolicismo, é normal a presença de tais elementos visualmente parecidos. A igreja anglicana faz parte do grupo de protestantes chamados de "históricos" e, assim sendo, mantêm ainda sem nenhum problema elementos da tradição católica, como o calendário litúrgico, algumas vestes etc.

Esse fenômeno de repulsa à todo elemento de "visual" católico é mais característico dos chamados "pentecostais" ou "neopentecostais", grupo mais moderno de protestantes, como a Assembléia de Deus e a Sara Nossa Terra.

De qualquer forma, o importante é compreender que o colarinho romano é de fato um elemento da tradição católica e, portanto, independente de qualquer cópia ou adaptação por qualquer outra religião ou seita, aceitação ou repulsa, elogio ou crítica, enfim, o importante é compreender que o original é católico, todo e qualquer padre católico pode usá-lo livremente.

Pax!

***eRiVaMsP****** disse...

Olá! Gostei muito de saber a real origem dos dois, e também, de ver sua posição referente a Igreja no Brasil. Realmente ela está muito "liberal" e relativa. Espero que alguns padre/religiosos(as) se "convertam" ao catolicismo, e que apareça mais e mais leigos que aponte para estes o caminho que deve ser seguido. Parabéns pelo blog!

Denyel Denieru disse...

Eu já fui pentecostal e na minha igreja não havia essa "repulsa por tudo que é católico". Na verdade nas escolas dominicais as vezes se usava a Bíblia Católica, por ela possuir mais livros. Independente das denominações cada congregação é diferente em virtude do pastor que é responsável por cada, graça a Deus só congregue nas boas.

Jaison Sudário disse...

Tudo bem?
Gostei muito de seu blog.
Mas gostaria de saber suas fontes de pesquisa, pois em breve irei fazer meu TCC, e talvez possa fazer voltado para esta área...
abraçs

jjsantana@outlook.com disse...

Sou "teólogo em formação" e me perguntaram qual o significado do uso pelos padres de uma camisa com um colarinho branco e redondo, prometi dar a resposto mais tarde e tratei de pesquisar. Graças a Deus encontrei. agradeço de coração este trabalho maravilhoso. tirei todas as dúvidas. Deus te pague.

Felipe Rebello disse...

O Colarinho-romano só pode ser usado com batina, ou também com camisa de manga?

Pablo Neves disse...

Prezado Felipe,

O Colarinho Romano adaptado para camisas de manga foi uma feliz ideia, que demonstra a capacidade de fazer as coisas se adaptarem sem perder suas características tradicionais.

É, evidentemente,a versão católica (e correta ao clero católico!) daquilo que foi adaptado pelos protestantes.

Enfim, é possível sim!

Gustavo Schultz disse...

Olá, só uma correção, o Rev. Dr. Donald McLeod era ministro em Glasgow da Igreja Presbiteriana e não anglicana...

Marcelo Reis disse...

Entendo a preocupação do autor, e até admiro ter gasto tempo em pesquisar isso.
Agora dizer que: "Como era de se esperar, diante a esmagadora falta de catequese... (n)a formação do próprio clero..." Aí já é muita prepotência. DIZER QUE A GENTE USA CLERGYMAN POR NÃO SABER é realmente muita prepotência do nosso autor aqui. O que reflito é: se eles já imitaram de nossas vestes, o que nos condena agora pegarmos a ideia, já que saiu de nossas vestes talares (batinas)?
E discordo de isto ser um "aceitar o Relativismo do tanto faz".
Outra, é absurdo aqui "declarar" que é "errado" um Padre usar Clergyman - Esta "Ecclesiadesign", até onde sei, não tem autoridade nenhuma para dizer por si o que é certo ou não de um padre vestir - Pois a Igreja mesmo não gasta tempo com este detalhe, é desnecessário.
Hoje se cria polêmica por qualquer coisa, e isto nos torna muito superficiais.
Agradeço ficar sabendo que há esta discussão.
EIS MEU COMENTÁRIO A RESPEITO.

Marcelo Reis disse...

Que triste visão a respeito dos Padres, hein, Ecclesiadesign?
ISTO É CATOLICISMO?
Não, isto não é catolicismo. Católicos amam e respeitam seus Sacerdotes, ao invés de ridicularizá-los publicamente.
Fiquei triste com a "linguagem pejorativa para com os Padres".
EIS O QUE PENSO.

Marcelo Reis disse...

Que triste visão a respeito dos Padres, hein, Ecclesiadesign?
ISTO É CATOLICISMO?
Não, isto não é catolicismo. Católicos amam e respeitam seus Sacerdotes, ao invés de ridicularizá-los publicamente.
Fiquei triste com a "linguagem pejorativa para com os Padres".
EIS O QUE PENSO.

Pablo Neves disse...

Prezado Marcelo, obrigado por ler e comentar em nosso blog!

Vamos esclarecer algumas coisas:

1 - primeiramente, fiz questão de colocar a palavra "correto" entre aspas, justamente para indicar que não se trata de algo "pecaminoso" ou sujeito á excomunhão. Lógico que não!;

2 - Sim, tem muito padre burro por aí, e nem é preciso fazer muito esforço para encontrar um. Isso não quer dizer que não existem aos montes muitos padres muito bem formados e/ou santos. De qualquer forma, saber ou não saber de um detalhe sobre colarinho de batina não faz nem dos inteligentes mais ou menos inteligentes e nem dos burros mais ou menos burros;

3 - Quanto à autoridade, em momento algum aqui se falou sobre isso, você que tocou no assunto. Eu só apresentei dados históricos para contextualizar o uso contemporâneo do clergyman. Mas a propósito, cabe a um seminarista do Ceará dizer o que é catolicismo ou não? Enfim...

4 - Você ficou triste com a linguagem? Não se preocupe,vai passar!

5 - A Igreja não se preocupa com isso? Bem, ainda bem que eu não sou "a igreja" então! Assim eu me preocupo com o que eu bem quiser, bem como os demais leitores do blog!;

6 - Você me questionou por minha posição no texto, me chamando de prepotente, desrespeitoso, ridicularizador e se duvidar, até anti-católico. Puxa vida heim? Pra um seminarista, você é bem "julgador", nem me conhece e por um texto me chama de tudo isso. Ainda bem que eu sou só designer mesmo!;

Por fim, quem pesquisa e compartilha conhecimento quer que, quem não sabe, comece a saber. Em momento algum isso me parece algo ruim. Ruim seria se eu soubesse e não dissesse à ninguém. Isso sim seria falta de amor aos sacerdotes. Corrigir nunca é falta de amor ou respeito, muito pelo contrário.

Eduardo disse...

Gostei dos esclarecimentos. Texto muito bem escrito. Ah, e diga-se de passagem, sou pastor batista e em nenhum momento me senti desrespeitado pelo bloguista. Devo confessar que fiquei feliz de saber que o clergyman é de origem protestante hehehe. Eu mesmo uso em ocasiões especiais. Uma vez, perdi a parte de vinil (antes era de pano engomado) que encaixa na camisa. e quem me forneceu esse acessório foi me primo, padre oblato de São José. Vou passar o link prá ele, que está em Lima-Perú, nossa cidade natal.

Sttafilo disse...

O assunto é bem curioso, e o responsável do depósito foi muito bem em suas afirmativas- Sou Cristão Adventista e percebo que o uso pelos padres da inovação do colarinho, de fato, não o desmerece, nem ao sacerdote protestante que o usa na sua inovação. PARABÉNS pelo post.

Wellyngthon disse...

Fico muito feliz por pessoas como você pesquisar, e ajudar a orientar pessoas a respeito das vestes sacras do clero. E você foi muito feliz em seu texto, não achei que esta a ridicularizar o clero, mas, orientar aqueles que o querem. Abraços e continue.

Vovó Jú disse...

Tenho uma sobrinha bastante religiosa, inclusive com a Consagração de Maria, e numa conversa com ela, falamos sobre as vestes dos padres. E, reafirmei minha vontade de voltar a ver os padres usando a velha e tradicional batina. Ela disse que os "padres renovadores" não usam porque eles acham que usando a vestimenta atual o povo sentem-se mais a vontade para se aproximar... Eu não concordo, pois padre para mim continua sendo o SACERDOTE e a aproximação é pelo carinho, emoção e aprendizado que eles nos passam. Adorei seu blog, pois aqui hoje tirei as dúvidas das vestimentas dos sacerdotes de hoje. Parabéns pelo Post.

Carminha Morais disse...

Olá.Fico contente em saber a história desse colarinho.Preciso saber de que material é feito a parte branca removível.

Alexandre-carlos silva disse...

Olá. Sou bispo evangélico, minha família é protestante a cinco gerações contando com meus sobrinhos no qual sou "tio avó". Sempre usei Clergyman, e muitos colegas evangélicos aprenderam a usar comigo. Sempre soube da origem. Diga-se de passagem muito boa as explicações técnicas e históricas. Orando por você Pablo Neves. Abraço fraterno.

Sergiopaulo Cunha disse...

Muita boa a explicação, outra coisa que aprendi que é invenção dos protestantes também são as velas do advento. Abraços fica na paz.